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Pecuária

De uns tempos para cá, houve um grande movimento para se fortalecer a identidade pantaneira por meio da valorização da memória, da cultura dessa região considerada “Reserva Natural da Biosfera”. Falarei desse patrimônio da humanidade como proprietária de um pedacinho dessa terra que todos consideram um paraíso, enfocando o trabalho de uma fazenda. As belezas naturais, os tuiuiús, as garças pantaneiras e onças pintadas já foram cantadas por muitos de nossos artistas. Atrás desse cenário maravilhoso, há braços que aí labutam, enfrentam diariamente perigos constantes, vigiados de perto por cobras venenosas, onças nas cordilheiras, grandes jacarés nas baías. A labuta de sol a sol, as longas horas no lombo dos cavalos tornam esses homens tenazes, fortes, rudes, mas também ( como não dizer…) felizes porque nutrem amor e carinho por essa região e por esse tipo de tarefa. O manejo do rebanho é feito com cuidado e disciplina. Os cavalos são bem cuidados: aparo dos cascos, tosa da crina, cura dos carrapatos. A traia de arreio é a vaidade do peão – rédeas, cabeçada, peiteira, pelego e atenção redobrada ao laço. Ao clarear do dia, tomado o quebra-torto (arroz carreteiro e mandioca), é montar o animal escolhido e sair para a lida diária: distribuir sal nas invernadas, ou curar bezerros, ou juntar o gado para encerrá-lo no curral. O peão pantaneiro aparta, reúne, divide e sub-divide o gado. Para se ter uma ideia do trabalho, é preciso vê-los atravessar pântanos e corixos, caronais e baixadas, vazantes e pirizeiros, até chegar ao local desejado. Na cura de bezerros, reúne-se a vacada parida e um peão montado laça o bezerro. Um outro afasta a vaca-mãe, que, furiosa, procura defender a cria. Um terceiro peão, a pé, corre, tira o laço, monta em cima do bezerro para dominá-lo. Examina-lhe a boca, cura o umbigo para não “abichar”, injeta-lhe um remédio e solta-o. Pronto…esse bezerrinho tem as condições necessárias para sobreviver bem. Chegada a hora do almoço, um pedaço de carne é assado ali mesmo, à sombra de uma grande árvore. Assim, a obrigação se repete incansavelmente até o final do dia quando retornam à sede num trotar macio, vagaroso e com a sensação do dever cumprido. Ao chegar, o banho nos cavalos é obrigatório. Depois, é só soltá-los, e ir para casa. Quando o trabalho é no mangueiro (normalmente perto da sede), juntam-se os peões e todos, como numa orquestra, têm que estar afinados: um abre a porteira, um segundo toca os animais, um terceiro abre o brete, um quarto vacina, aplica os remédios necessários, um quinto solta, e um último, sentado em cima do “ovo”( repartição do mangueiro feito para distribuição do gado ) faz a separação dos animais. De tempo em tempo, pausa para o tereré, porque ninguém é de ferro. Interrupção, só para o almoço com direito a um pequeno descanso… Depois, recomeçam-se as obrigações, que só terminam no final da tarde, com a soltura do gado nas invernadas. Os peões, quando se juntam em roda, são alegres e contadores de histórias verdadeiras e também de algumas lorotas; mas, no meio da lida, em cima de seus cavalos, têm os olhos atentos na vacada, mãos ágeis para laçar os chifres do gado sem lhe machucar as orelhas… Esse é o grande feito… O peão pantaneiro respeita os animais, gosta de andar a cavalo, é desconfiado, e ama a liberdade. Normalmente, seu trabalho é com a cria e a recria feitas de maneira semi extensiva, sistema esse que permite adequar as suas tarefas às condições ambientais, mantendo o equilíbrio ecológico e a conservação da flora e da fauna. E é por esse motivo que é considerado o nosso maior, melhor e verdadeiro ambientalista.

Texto: Moreli Teixeira Arantes – Pecuarista, Proprietária da Fazenda CENTENÁRIO no Pantanal de Aquidauana MS

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